Notícias do Médio Vale do Itajaí

“El Niño não é sinônimo de desastre”: Fábio Melere explica riscos climáticos e alerta contra previsões alarmistas

Diretor da Defesa Civil de Rodeio afirma que ainda é cedo para prever enchentes históricas no Vale do Itajaí e destaca a importância da prevenção e do planejamento urbano

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As previsões sobre a possível formação de um forte El Niño nos próximos meses têm movimentado debates nas redes sociais e gerado preocupação entre moradores do Vale do Itajaí.

Em entrevista ao podcast Mistukenti, o diretor da Defesa Civil de Rodeio, Fábio Melere, abordou o assunto de forma técnica e esclareceu diversos pontos sobre o fenômeno climático, reforçando que, apesar da necessidade de atenção, ainda não há elementos suficientes para afirmar que a região enfrentará enchentes semelhantes às registradas em 1983 e 1984.

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“El Niño não é sinônimo de desastre”: Fábio Melere explica riscos climáticos e alerta contra previsões alarmistas
Créditos: Fábio Ferrari – Misturebas News

Logo no início da conversa, Melere destacou um dos principais equívocos que surgem sempre que o tema volta ao debate público: a associação direta entre El Niño e desastre natural.

Segundo ele, a ocorrência do fenômeno não significa automaticamente que enchentes, deslizamentos ou outros eventos extremos irão acontecer.

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O El Niño representa apenas uma condição climática que aumenta a probabilidade de determinados cenários, mas que depende da atuação simultânea de diversos outros fatores atmosféricos.

“Para acontecer um desastre, não basta apenas o El Niño. É necessária uma sequência de fatores atuando ao mesmo tempo. Sistemas de baixa pressão, bloqueios atmosféricos, intensidade e distribuição das chuvas, tudo isso influencia diretamente no resultado final”, explicou.

“El Niño não é sinônimo de desastre”: Fábio Melere explica riscos climáticos e alerta contra previsões alarmistas
Créditos: Fábio Ferrari – Misturebas News

O diretor comparou a situação à ocorrência de acidentes aéreos, onde normalmente não existe uma única causa, mas uma sequência de acontecimentos que leva ao problema. Na meteorologia, segundo ele, ocorre algo semelhante.

Enchentes históricas não aconteceram apenas por causa do El Niño

Durante a entrevista, Melere relembrou que as grandes enchentes de 1983 e 1984 são frequentemente citadas quando o assunto é El Niño. No entanto, ele ressaltou que os eventos históricos não podem ser atribuídos exclusivamente ao fenômeno.

De acordo com o diretor, a enchente de julho de 1983 ocorreu quando o El Niño já apresentava sinais de enfraquecimento. Além disso, outros exemplos mostram que eventos extremos podem ocorrer mesmo em situações opostas.

Em 2008, por exemplo, Santa Catarina enfrentou uma das maiores tragédias climáticas de sua história sob influência da La Niña, fenômeno caracterizado pelo resfriamento das águas do Oceano Pacífico.

Em 2011, ano da maior enchente já registrada em Timbó, quando o Rio Benedito atingiu 9,86 metros, também havia atuação da La Niña.

Já em 2015, quando foi registrado um dos mais intensos episódios de El Niño já monitorados no planeta, os impactos na região não tiveram a mesma magnitude observada em outras ocasiões.

“São exemplos que mostram que não existe uma relação automática entre o fenômeno e o desastre. O comportamento da atmosfera é muito maiscomplexo”, afirmou.

Créditos: Fábio Ferrari – Misturebas News

Previsões de longo prazo exigem cautela

Outro ponto destacado por Melere foi a dificuldade de prever com precisão os impactos que poderão ocorrer meses à frente.

Embora instituições internacionais indiquem a possibilidade de um El Niño forte ou até mesmo de intensidade excepcional, ele explica que os modelos meteorológicos conseguem apresentar maior grau de confiança apenas em períodos mais próximos da ocorrência dos eventos.

“Atualmente conseguimos trabalhar com mais assertividade quando estamos falando de uma ou duas semanas de antecedência. Fazer previsões exatas para outubro ou novembro ainda é algo muito difícil”, disse.

Créditos: Fábio Ferrari – Misturebas News

Segundo ele, os meses de setembro, outubro e novembro tradicionalmente já apresentam elevados volumes de chuva no Vale do Itajaí. Caso o El Niño realmente se confirme, existe uma tendência de que os acumulados fiquem acima da média histórica.

No entanto, a forma como essa chuva será distribuída ao longo dos meses é o que determinará os impactos.

“Se chover 400 milímetros distribuídos ao longo de várias semanas, o cenário é um. Se esses mesmos 400 milímetros caírem em dois ou três dias, aí sim teremos problemas muito maiores”, explicou.

Extremos climáticos estão mais frequentes

A conversa também abordou as mudanças observadas nos padrões climáticos dos últimos anos.

Melere reconheceu que temperaturas mais elevadas e eventos extremos estão cada vez mais presentes, alterando o comportamento das estações do ano.

Segundo ele, períodos de frio e calor intensos têm se tornado mais frequentes, enquanto as transições entre as estações acontecem de forma menos gradual.

Além disso, destacou que Santa Catarina ocupa uma posição geográfica que favorece a ocorrência de fenômenos severos, resultado do encontro entre massas de ar frio vindas do sul do continente e correntes de ar quente e úmido provenientes da região amazônica.

Essa combinação contribui para a formação de tempestades intensas, granizo, vendavais e até tornados.

Santa Catarina é um dos maiores corredores de tornados do mundo

Um dos momentos mais curiosos da entrevista foi quando Melere falou sobre a ocorrência de tornados no estado.

Segundo ele, estudos desenvolvidos por especialistas da área indicam que Santa Catarina está entre as regiões com maior incidência desse tipo de fenômeno no planeta.

O diretor citou pesquisas que apontam o estado como um dos principais corredores de tornados do mundo, ficando atrás apenas dos Estados Unidos em determinados levantamentos.

“Os tornados não começaram a acontecer agora. Eles sempre existiram. O que mudou foi a capacidade de monitoramento e de registro desses eventos”, explicou.

Créditos: Fábio Ferrari – Misturebas News

Entre os casos mais marcantes está o tornado de Guaraciaba, no Oeste catarinense, que atingiu intensidade F4, com ventos superiores a 300 quilômetros por hora.

Ao comentar os dados históricos da região, Melere revelou números que chamam a atenção.

Segundo levantamentos realizados a partir de registros pluviométricos que remontam à década de 1920, outubro de 2023 foi o segundo mês mais chuvoso da história de Timbó.

Naquele período, foram registrados aproximadamente 900 milímetros de chuva em apenas um mês, ficando atrás apenas de julho de 1983, quando os acumulados se aproximaram dos mil milímetros.

O resultado foi uma sequência de quatro enchentes em apenas um mês, situação considerada excepcional para os padrões da região.

Planejamento urbano é a principal ferramenta contra os impactos

Questionado sobre como reduzir os prejuízos causados pelas enchentes, Melere foi direto: a solução passa pelo planejamento urbano.

Segundo ele, cidades como Timbó, Rodeio, Rio dos Cedros, Benedito Novo e diversas outras do Vale do Itajaí cresceram historicamente próximas aos rios, o que torna impossível eliminar completamente os riscos.

Por isso, o caminho está na adoção de políticas públicas que considerem os mapas de risco, as cartas de inundação e os estudos de suscetibilidade a deslizamentos.

“Não existe uma fórmula para acabar com as enchentes. O que existe é planejamento para reduzir impactos, preservar vidas e evitar prejuízos maiores”, afirmou.

Ele também destacou a importância da preservação de áreas verdes, da infiltração da água no solo e da redução da impermeabilização excessiva provocada pelo crescimento urbano.

Limpeza de rios ajuda, mas não resolve tudo

Outro tema abordado foi a limpeza de rios e ribeirões, ação que vem sendo realizada em diversos municípios da região.

Segundo Melere, esse tipo de trabalho é eficiente principalmente para reduzir problemas relacionados às enxurradas, permitindo que a água escoe com mais rapidez.

Em Rodeio, por exemplo, a Defesa Civil conseguiu recursos estaduais para executar a limpeza de cerca de 25 quilômetros de cursos d’água.

>>LEIA TAMBÉM: No Mistukenti, Eduardo Senem esclarece simulados da Defesa Civil e orienta população

No entanto, ele alerta que a medida não é capaz de impedir enchentes provocadas pela elevação dos grandes rios.

“No caso das enxurradas, a limpeza ajuda bastante. Já nas enchentes causadas pelo represamento dos rios maiores, o efeito é muito menor”, explicou.

Ao encerrar a entrevista, Fábio Melere reforçou que a população deve acompanhar as informações oficiais e evitar o compartilhamento de previsões alarmistas.

Para ele, o momento é de monitoramento constante, planejamento e preparação, sem gerar pânico desnecessário.

“O risco existe e deve ser acompanhado. Mas ninguém pode afirmar hoje que teremos uma tragédia. O que podemos fazer é nos preparar, acompanhar os dados oficiais e agir com responsabilidade”, concluiu.

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