Ulisses Gabriel reconhece falhas na divulgação de informações sobre o caso Cão Orelha
O ex-delegado-geral da Polícia Civil de Santa Catarina, Ulisses Gabriel (PL), admitiu erros na forma como as informações sobre o caso do cão Orelha foram divulgadas. Eleito deputado estadual nas Eleições 2026, com 48.130 votos, o delegado afirmou que a Polícia Civil deveria ter aguardado mais antes de realizar uma coletiva de imprensa sobre o episódio.
A declaração foi feita durante entrevista a uma rádio de Criciúma nesta semana. Segundo Ulisses, houve imaturidade na comunicação pública do caso, embora ele negue ter tentado obter benefícios pessoais com a repercussão ou ter se omitido diante dos acontecimentos.
“Fizemos uma coletiva de imprensa que não deveríamos ter feito, deveríamos ter esperado mais”, afirmou. Ele também reconheceu que houve erros de sua parte na divulgação das informações.
Delegado afirma que não participou diretamente da investigação
Ulisses Gabriel ressaltou que não conduziu diretamente as investigações sobre a morte do cão Orelha, ocorrida na Praia Brava, em Florianópolis. Na época, ele ocupava o cargo de delegado-geral da Polícia Civil e atuou como porta-voz institucional, apresentando informações sobre o andamento do caso.
A exposição, porém, tornou seu nome conhecido nacionalmente. Um levantamento citado pela reportagem da NSC Total identificou que, das 94 publicações feitas por Ulisses no feed do Instagram desde o início da repercussão, 40 mencionavam o caso — o equivalente a 42,5% do total.
O número de publicações também foi superior ao registrado nos perfis oficiais da Polícia Civil, que fizeram sete postagens relacionadas ao episódio no período analisado.
Questionado sobre uma ação movida pelo Ministério Público de Santa Catarina (MPSC), que aponta possível promoção pessoal por meio da visibilidade do cargo, Ulisses negou irregularidades e disse acreditar que os pedidos contra ele serão julgados improcedentes.
A defesa sustenta que não houve ato de improbidade administrativa e afirma que o ex-delegado atuou dentro da legalidade, respeitando as atribuições institucionais. O processo ainda aguarda julgamento, conforme as informações divulgadas na reportagem.
Ulisses menciona possível movimento para ampliar a repercussão
Durante a entrevista, o ex-delegado também comentou a dimensão nacional que o caso Orelha alcançou. Ele afirmou que teria identificado indícios de uma articulação para ampliar a divulgação do episódio enquanto outros assuntos políticos e econômicos ganhavam espaço no noticiário.
Segundo Ulisses, alguns canais que publicavam frequentemente sobre o caso teriam recebido dinheiro do empresário Daniel Vorcaro, ligado ao caso Banco Master. Ele levantou a hipótese de que a repercussão pudesse ter sido estimulada para desviar a atenção de denúncias envolvendo o sistema financeiro e fraudes no INSS.
A declaração representa a avaliação apresentada pelo próprio ex-delegado. As informações divulgadas no texto-base não detalham eventuais conclusões oficiais que comprovem a existência de uma articulação com essa finalidade.
>>>Leia também: MPSC pede condenação de ex-delegado-geral da Polícia Civil por suposta promoção pessoal no caso Cão Orelha
Ministério Público apontou dúvidas sobre a morte do cão Orelha
O caso ganhou grande repercussão após suspeitas de que o cachorro, conhecido por moradores da Praia Brava, teria sido agredido. Entretanto, ao analisar os elementos reunidos na investigação, o MPSC apontou contradições nos depoimentos e limitações nas provas disponíveis.
Entre os materiais examinados estavam quase dois mil arquivos digitais, incluindo vídeos, fotografias e dados de celulares apreendidos. O Ministério Público também considerou laudos periciais, imagens de câmeras de vigilância e depoimentos de adolescentes e testemunhas.
Um dos pontos destacados foi a possibilidade de que a morte estivesse relacionada a uma doença óssea grave, identificada após a exumação do corpo do animal. Segundo o relatório ministerial, a condição de saúde poderia explicar as lesões observadas na cabeça, sem que fosse possível afirmar com segurança que houve agressão física.
A análise das imagens também apontou divergências nos horários registrados por câmeras e não confirmou que os adolescentes investigados estivessem no mesmo local que o cão nos momentos indicados como possíveis períodos das agressões.
Diante dos elementos reunidos, o MPSC pediu o arquivamento do procedimento relacionado à suposta agressão, pedido que foi aceito pela Justiça. O desfecho não elimina, por si só, a discussão sobre a conduta de Ulisses Gabriel na divulgação pública do caso, que é objeto de uma ação distinta.
Ação contra o ex-delegado ainda aguarda julgamento
Na ação envolvendo a atuação de Ulisses, o Ministério Público sustenta que ele teria ultrapassado os limites da comunicação institucional e utilizado a visibilidade do cargo para construir uma imagem pessoal e política.
A Promotoria pede indenização de R$ 200 mil por dano moral coletivo, além de multa que pode chegar a 24 vezes o salário recebido pelo delegado à época dos fatos.
A defesa nega desvio de finalidade e afirma que não houve conduta dolosa capaz de caracterizar improbidade administrativa. Ulisses, agora eleito deputado estadual, reiterou que não pretendia se promover com o caso e afirmou que sua participação se limitou à comunicação institucional da Polícia Civil.







