Sirene ligada, tensão no ar: Alan Santos revela os bastidores do SAMU em Timbó no Mistukenti

O podcast Mistukenti recebeu o motorista do SAMU de Timbó, Alan Santos, para um bate-papo que mostrou um lado pouco conhecido da rotina de quem atende emergências na cidade e na região.
Servidor efetivo da Prefeitura de Timbó, Alan contou que ingressou por concurso público em 2023, iniciou o trabalho na Secretaria de Obras e, mais tarde, foi transferido para a Secretaria de Saúde, onde passou a atuar no serviço de atendimento móvel de urgência.
Durante a conversa, ele explicou que o SAMU de Timbó funciona com uma única ambulância por plantão e uma equipe reduzida, formada por apenas dois profissionais por turma. Além de atender o município, a base também presta suporte para cidades como Doutor Pedrinho, Rio dos Cedros, Rodeio e Benedito Novo.
Segundo Alan, isso faz com que muitas ocorrências precisem ser reguladas com atenção redobrada, já que nem sempre a ambulância está disponível na cidade.
Um dos pontos esclarecidos no programa foi a diferença entre o atendimento prestado pelo SAMU e pelo Corpo de Bombeiros. Alan explicou que, em casos como acidentes de trânsito, ambos podem ser acionados.
A principal diferença está no fato de que o SAMU atua diretamente com regulação médica. Durante o atendimento, um médico da central em Blumenau acompanha a situação por telefone e orienta procedimentos, inclusive sobre a administração de medicamentos, algo que os bombeiros não realizam.

O convidado também desmistificou uma dúvida frequente da população: não existe regra de que acidentes em casa sejam exclusivos do 192 e acidentes em via pública do 193.
A decisão sobre qual equipe será enviada depende da avaliação feita pela central de regulação, do grau de gravidade da ocorrência e da disponibilidade das viaturas.
Alan explicou ainda que o serviço trabalha com três níveis de prioridade: código verde, quando não há risco imediato; código amarelo, quando há possibilidade de agravamento; e código vermelho, utilizado em situações de risco iminente de morte.
Segundo ele, o nervosismo de familiares durante a ligação muitas vezes pode gerar informações imprecisas, o que altera a classificação inicial da ocorrência.

Entre os relatos marcantes da entrevista, Alan contou um dos atendimentos mais tensos que viveu até agora: um caso de surto envolvendo um homem sob efeito de entorpecentes. Ao chegar ao local, a equipe do SAMU encontrou a Polícia Militar já mobilizada.
O homem havia se trancado em um quarto, tentado agredir familiares e apresentava comportamento violento.
De acordo com Alan, a tentativa inicial foi de negociação, mas a situação se agravou quando o homem passou a ameaçar quem estava do lado de fora. A porta acabou sendo arrombada e o paciente precisou ser contido.
O técnico de enfermagem da equipe, com treinamento em imobilização, conseguiu controlar a situação sem agressões. O caso terminou com o encaminhamento do homem sob custódia policial.
O motorista relatou que esse tipo de ocorrência, muitas vezes, está relacionado ao uso de drogas ou a transtornos agravados por álcool e medicação.
Segundo ele, os surtos estão entre os atendimentos que mais exigem equilíbrio emocional da equipe, já que o trabalho envolve não apenas o paciente, mas também familiares em desespero.
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Outro momento forte da entrevista foi quando Alan falou sobre o atendimento mais difícil que enfrentou no SAMU até agora: uma paciente em parada respiratória causada por hipóxia. Ele contou que a equipe conseguiu reverter o quadro no local, mas o impacto emocional foi grande.
Para o profissional, é impossível atuar na área da saúde sem se envolver com o sofrimento das pessoas.
“Se você não se apega com o ser humano, está na área errada”, resumiu.
Alan também chamou atenção para um problema que, segundo ele, atrapalha diretamente os atendimentos: a falta de respeito de parte dos motoristas com as ambulâncias em deslocamento. Ele destacou que conduzir uma viatura em código vermelho não significa apenas acelerar, mas dirigir com responsabilidade, evitando criar novas vítimas no trajeto.
Outro alerta importante feito por ele diz respeito ao comportamento de curiosos em acidentes. Em muitos casos, segundo Alan, pessoas se aproximam para filmar, mas deixam de prestar a ajuda mais básica: acionar os serviços de emergência e manter o local seguro.
Durante a entrevista, ele ainda explicou uma orientação essencial em acidentes de motocicleta: retirar o capacete de uma vítima sem avaliação técnica pode agravar traumas graves.
No protocolo do SAMU, antes de qualquer procedimento, a primeira avaliação é sempre a da cena segura, ou seja, garantir que o local não ofereça riscos para a equipe, para a vítima e para quem está ao redor.
Ao longo do episódio, Alan também refletiu sobre como o estresse, a ansiedade e o ritmo acelerado da vida moderna aparecem cada vez mais nas ocorrências atendidas.

Para ele, muitas crises emocionais, surtos e até agravamentos clínicos têm relação com a pressão cotidiana, o isolamento social e a dificuldade crescente das pessoas em desacelerar.
No Mistukenti, o motorista do SAMU de Timbó mostrou que, por trás da sirene e da correria, existe uma rotina de decisões rápidas, preparo técnico e muita carga emocional.
Confira!










