Facções ampliam atuação na Amazônia e presença cresce 32% em um ano
Relatório aponta avanço acelerado do crime organizado na região.
O Comando Vermelho (CV) tem ampliado sua atuação no garimpo ilegal da Amazônia e passado a cobrar mensalidades obrigatórias de trabalhadores envolvidos na extração mineral em Alta Floresta, no Mato Grosso.
A informação consta em mensagens enviadas pela própria facção em grupos de WhatsApp, às quais a Agência Brasil teve acesso.
Desde outubro, garimpeiros que operam balsas e escarientes são obrigados a realizar um cadastro e efetuar pagamentos entre os dias 1º e 8 de cada mês.
Os valores variam conforme o tipo de equipamento utilizado. Nos textos compartilhados, o grupo afirma que “todos os trabalhos ilegais dentro do estado de Mato Grosso são prioridade e voltados à organização”.
As mensagens também incluem ameaças explícitas a quem descumprir as regras. A facção diz que garimpeiros que não pagarem poderão ter máquinas incendiadas, ser impedidos de trabalhar ou até perder a vida.
As revelações coincidem com dados divulgados nesta quarta-feira (19) pela 4ª edição do estudo Cartografias da Violência na Amazônia, produzido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) e apresentado na COP30, em Belém.
O levantamento mostra que o crime organizado avançou significativamente na região: facções já atuam em 344 dos 772 municípios da Amazônia Legal — 45% do total. Em 2024, eram 260 cidades.
Segundo a diretora-executiva do FBSP, Samira Bueno, organizações ligadas ao narcotráfico têm encontrado nos crimes ambientais novas oportunidades para lucrar e lavar dinheiro.
“Nenhuma solução ambiental será eficaz sem cidadania e segurança nos territórios”, afirma.
Presença e disputa entre facções
O estudo registra a atuação de 17 facções criminosas na Amazônia. Entre elas, além do CV e do Primeiro Comando da Capital (PCC), estão grupos regionais como Bonde dos 40 (B40), Primeiro Comando do Maranhão (PCM), Família Terror do Amapá (FTA) e dissidências internas, como o Bonde dos 777 e a Tropa do Castelar.
Há ainda atuação de organizações estrangeiras, como a venezuelana Tren de Aragua.
O Comando Vermelho é a facção com maior capilaridade: está presente em 286 municípios, domina 202 e disputa território em 84.
A organização controla principalmente rotas fluviais estratégicas associadas ao tráfico internacional de cocaína.
O PCC, por sua vez, exerce influência direta em 90 cidades e tem ampliado o uso de rotas aéreas clandestinas, incluindo pistas em áreas de garimpo e em unidades de conservação.
Violência crescente na região
A Amazônia Legal registrou 8.047 mortes violentas intencionais em 2024, taxa de 27,3 por 100 mil habitantes — 31% acima da média nacional. O Amapá lidera os índices, com 45,1 por 100 mil.
Municípios pequenos também vivem escalada de violência. Vila Bela da Santíssima Trindade (MT), por exemplo, saltou de 12 homicídios em 2022 para 42 em 2024, crescimento associado ao avanço do CV e ao garimpo em território indígena.
Grandes cidades também enfrentam problemas. Sorriso (MT), conhecida como capital nacional do agronegócio, registrou 72 homicídios violentos em 2024 e figura entre as cidades com maior número de estupros de vulnerável.
Violência contra mulheres
O estudo também aponta que 586 mulheres foram assassinadas na Amazônia Legal em 2024 — taxa 21,8% maior que a média do país.
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Mato Grosso lidera o ranking da região, com 5,3 mortes por 100 mil mulheres. O Maranhão é o único estado que teve aumento de homicídios femininos.
Segundo Samira Bueno, as políticas de enfrentamento à violência doméstica precisam ser adaptadas às especificidades da região, marcada por territórios isolados e baixa presença do Estado.







